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CRÔNICAS DE UMA VIDA AMERICANA
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. Voce quer vir para os E.U.A?
Terry Françoise Boretti
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. . . Então
voce decididu vir para os EUA, parabéns! Sendo país
de primeiro mundo, com economia indo de vento em popa (apesar
dos pessimistas de plantão), tenho certeza que voce
fez excelente escolha. Além do que, é ótimo
conhecer novas culturas, novos povos, saber quais são
seus problemas, como eles vêem as soluções,
enfim, dar uma "atualizada" nos neurônios.
Imagino que voce tenha em torno de 18 anos, com alguns amigos/as
que já
vieram, e a empolgação bate no teto, certo?
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. . . Deixe-me,
entretanto, dar um palpite do que vai acontecer. Claro não
sou futuróloga, nem tampouco pode-se ter certeza se
voce vai para o Alasca ou para o Arizona, o que muda o aspecto
cultural da coisa. Me permita um parênteses por aqui:
eu achava que o Alasca era sinônimo de iglu + esquimó.
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. . . Ledo
engano. Tendo um amigo da Bolívia que foi para lá
como estudante, ficou impressionado com o tamanho da cidade
e com a quantia de espanhol falado nos ônibus. Tudo
geladinho, claro! Voce deve vir por uma agência de intercâmbio,
que vai tomar conta de tudo, moleza geral. Ao chegar ao aeroporto,
tem um funcionário da tal agência que vai te
pegar numa Van, juntamente com outros estudantes que estão
chegando com voce. A chegada na casa da nova família
é triunfal, todo mundo sorridente, casa gostosíssima,
decoração "diferente", as boas vindas
são autênticas e calorosas. Voce deve chegar
à noitinha, está cansado, vão mostrar
seu quarto: um aconchego só, parece que prepararam
para voce! Te mostram o banheiro, como funciona (chuveiro,
etc) e pimba: todo mundo vai
dormir.
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. . . No
dia seguinte, voce desce, meio sem jeito, a família
sempre sorridente e feliz te mostra tudo: a geladeira (muito
bem recheada), a despensa (lotada de bolachinhas, biscoitinhos,
latas, cereais), cada um mais colorido e convidativo do que
o outro, te mostram o funcionamento do fogão (êpa!),
do microondas, da torradeira, da máquina de lavar,
da de secar, (não, não tem varal). Voce até
se pergunta para que tanta explicação. Deixa
estar que já já voce vai saber. Aí vai
todo mundo tomar café, cada um come algo, um ovos com
bacon, outro cereal, outro faz sanduíche. Voce, nessas
alturas, meio perdido: não sabe se quer um pouquinho
de cada ou se entra no cheirosíssimo ovos com bacon.
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. . . Barriguinha
estufada, lá vai voce para teu curso de inglês.
Primeiro susto: vai
andar um pedacinho razoável até pegar o ônibus
(que na realidade se transformam em 2 ou 3). talvez, nesse
primeiro dia te levem no ponto, talvez. Chegando no curso,
vai se dar conta que, como num passe de mágica, todos
brasileiros se reunem num grupo, (para desespero de papai
e mamãe que estão pagando o curso), assim como
os outros latinos, os europeus e os
árabes. Todo mundo entrosando, tudo indo às
mil maravilhas. Os mestres, nem é necessário
descrever: são todos treinados a receberem estrangeiros,
parece até que adivinham seu pensamento. Introdução
geral, um teste aqui outro acolá para ver seu nível,
assim vai seu primeiro dia.
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. . . Final
da tarde, hora de pegar o tal ônibus (ou 2 ou 3), para
voltar para casa. Ao chegar em casa, (chave em punho, te deram
na véspera - ou a porta fica definitivamente aberta),
surpresa: ninguém lá. Coragem de atacar a despensa,
no primeiro dia voce não tem. Fazer o que? Subir para
o quarto, organizar os estudos, curtir um pouco. Até
que às 5 hs, chega a dona-da-casa, prepara uma janta
rápida e às 6:00 (?) é servido o jantar.
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. . . Gostoso,
aliás para quem está com fome qualquer coisa
vira iguaria. Depois da janta, voce é sutilmente requisitado
para tirar a mesa, aprender a lavar a louça que não
vai para a máquina, (já te digo: não
vão pratos com bordas douradas, copos de vinho, panelas,
qualquer coisa de prata, ou delicada - nada disso eu sabia!)
e dar uma geral na cozinha. Muito naturalmente, te avisam
que amanhã ninguém vem jantar e que é
para voce "se virar". Frieza? Nada disso: estilo
americano mesmo. Depois da cozinha arrumada, eles ficam
uns 15 minutos explicando o uso das outras máquinas:
a de lavar roupa, secar, etc
e
para sua surpresa
geral, o rodízio em que voce vai participar para limpar
a casa
! Toda quinta, duas vêzes por mês,
sei lá, que tem, tem.
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. . . É
o momento da primeira pontada no coração. Passada
a primeira semana, voce está mais enturmado com tudo
e todos (exceto com o trabalho doméstico), mas ainda
não deu para comer todos aqueles biscoitinhos maravilhosos
que estão na despensa. A família é legal,
mas todos são literalmente muito ocupados. O teu primeiro
dia de faxina é meio desastroso, afinal, -v-o-c-e-
pilotando uma vassoura? Tenha dó! Além do que,
não tem rodo, e aquele buraco que voce vê no
chão da cozinha, não é ralo, não.
Vamos admitir: voce nunca deu muita bola para a empregada
da família, mas agora
que saudade!
.
. . . Passado
o segundo mês, tendo atacado todos os "cookies",
todas as latas e pacotinhos da despensa, tudo aquilo perde
um pouco a graça e dá uma saudade incrível
dos bolinhos fritos que a sua empregada brasileira fazia no
meio da tarde
(para sua cultura culinária, aquele
bolinho se chama espera-marido ou bolinho-de-chuva). Voce
faz uma nota na memória (ou no coração)
que vai comprar um presentão para ela quando voltar.
Ah, se vai! É a síndrome: saudade-de-casa.
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. . . Mas
a sua estada é um sucesso, são vencidos os problemas,
a família que te hospeda, sempre sorridente e feliz,
o inglês bem melhor, é chegada a hora de voltar
para casa. Brasil, cheguei! É aí e só
aí, que voce vai dar valor a roupa suja que voce coloca
no cesto e aparece "como num passe de mágica",
lavada, passada, dobrada e já guardada na sua gaveta.
Ufa, que alívio!
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