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CRÔNICAS DE UMA VIDA AMERICANA
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. Prova prática: dureza inimaginável
Terry Françoise Boretti
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. . . Tendo
passado na prova teórica, que todos dizem ser a mais
difícil, (e eu inocentemente acreditei), comecei a
esquentar os múculos e os neurônios para o preparo
da tal prova prática. Já de exame marcado para
abril de 2003 - me dei bastante tempo, pois é preciso
me preparar em bovino, equino, canino, felino, caprino, suino,
e ovino. Além de obviamente matérias correlatas,
como anestesia, cirurgia, necrópisa, laboratório,
radiologia, etc.
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. . . Eis
que de repente recebo uma ligação da "comissão
dos veterinários estrangeiros", dizendo que havia
uma vaga para fazer a prova em novembro, queria eu ou não?
Engasguei, claro,
sim, não, hummm, me deram
24 hs para pensar. O olho sempre maior do que a barriga, o
entusiasmo sempre maior do que a lógica, topei. Topei,
e recebi a confirmação pelo correio dois dias
depois. Desprovida de qualquer sabedoria, de papel na mão,
só depois fui dar uma olhada na matéria ( a
prova prática é a única que eles dizem
o que cai tim tim por tim tim). Nem sei se desmaiei quando
me dei conta: eram 78 páginas, só de tópicos
a estudar. Isso tudo sem contar com o custo, é o mais
caro dos exames da medicina veterinária: são
U$ 6.000,00 sem contar com passagem de avião, aluguel
de carro e hotel - são 5 dias de testes.
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. . . Foi
uma correria, um sufoco, pois precisava que veterinários
tivessem tempo para me ensinar tudo o que sabiam sobre os
assuntos que iriam cair. E como todo mundo sabe, aqui ninguém
tem tempo para nada, muito menos para ensinar os outros. Mas
fui sortuda e encontrei 2 brasileiros que se dispuseram a
me ensinar sobre bovinos. Passar sonda, fazer lavagem ruminal,
fazer vaca fazer xixi, palpação, obstetrícia,
exame de mastite, caso clínico, cirúrgico, socorro!
Os tais maravilhosos brasileiros me apresentaram a uma clínica
onde pude aprender sobre pequenos animais. Fica a 3 hs de
casa, mas não interessa: tudo pelo sucesso do empreendimento!
Fiquei mais tempo no volante do que nos livros: ia para Lemoore
para aprender sobre pequenos animais, Riverdale para bovinos,
Visalia para aprender sobre emergências, Tulare sobre
necrópsia e Gilroy sobre equinos.
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. . . Data
da prova se aproximando e o nível de adrenalina subindo,
tudo muito normal. Chegada a data, viajo (a prova é
no Mississipi) e fui muito feliz, pois no primeiro dia comecei
com equinos, a confiança bateu no céu, depois
bovinos (moleza). Segundo dia, foi sobre pequenos animais
e não fui nada mal. Nessas alturas o nível de
adrenalina começou a baixar, o que me arrependi amargamente
depois. Radiologia, estava, digamos, interessante, laboratório
devo ter passado raspando - não gosto e não
sei. Eis que chega o dia da cirurgia: o grupo de 9 candidatos
foi dividido e eu fiquei na parte que fazia anestesia na manhã
e cirurgia na tarde. Perdi ali a minha inocência: fiquei
sabendo que os cães em que faríamos a cirurgia
eram sacrificados.
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. . . O
problema se deu no meu turno de cirurgia. Cada um tinha sua
cadela destinada a sí próprio, tudo muito regulamentado,
estilo americano. Fomos lá, eu e meu grupo, pegar os
animais. Todos sem exceção, tinham uma cadela
tipo sofrida, simples, humilde, quieta, a minha, o oposto:
estava pulando no meu colo, abanando o rabo e me lambendo.
Sentiu o drama, né? Quando não vi nenhum instrutor
por perto, ofereci correndo U$ 100,00 para meu colega das
Filipinas para trocar de cadela, que vendo meu sufoco, negou
de ponto. As lágrimas me vieram aos olhos; enxuguei
disfarçadamente, com medo de não me deixarem
fazer a cirurgia e me reprovarem por antecipação.
Mas Deus é grande, secou minhas lágrimas e ainda
fui capaz de fazer uma cirurgia nota 10, sob os olhares penetrantes
dos mestres cirurgiões.
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. . . Passei!
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