|
CRÔNICAS DE UMA VIDA AMERICANA
.
. O que estou fazendo de errado?
Terry Françoise Boretti
.
. . . País
novo, vida nova, novas emoções, novos mares
a serem navegados. Tudo maravilhoso, diga-se de passagem.
Marido (eu estava querendo à muito tempo) ótimo,
filhas nas respectivas escolas e trabalhando, imigração
em andamento (êta sufoco!), tudo muito cor-de-rosa
!
Em um acordo prévio com o marido, ele vai trabalhar
enquanto eu vou estudar para me graduar em veterinária
aqui. Assim que eu me formar, ele aposenta. Eu, em pleno EUA
(como eu queria), podendo estudar a medicina veterinária
(que adoro), sem ter que trabalhar. Posso pedir mais? Não,
claro que não!
Pois vamos à dura realidade:
O estudo que vou fazer precisa ser intenso e constante por
no mínimo um ano, afinal é a matéria
toda (matéria toda daqui, super recente, bem diferente
da realidade de quem formou há 21 (21? Socorro!) anos.
Teoricamente montei um plano de estudo genial: acreditando
que todo mundo sai da casa às 7,30, tenho até
às 9 hs para cuidar das tarefas-mínimas-obrigatórias:
arrumar o quarto, dar "um alô" para o banheiro,
empilhar a bagunça da sala de TV e "ajeitar"
a cozinha (quando todo mundo sai, parece que houve uma guerra
- bem, uma pequena guerra - na cozinha), etc
estudo
das 9 às 12, paro, preparo almoço, lavo uma
roupinha e recomeço às 1,30hs vou até
umas 5, quando então paro para preparar o jantar. Tudo
muito simplezinho, tudo muito certinho.
.
. . . A
prática entrou em choque com meu plano: Às vêzes
ainda tem gente em casa em pleno 8:30 da manhã, atrasando
drasticamente meu dia, muitas vezes até mais tarde
depois tem sempre algo que está faltando do
super mercado, coisa que não dá para esperar,
tipo: leite, ovo, pão, laranjada, etc - não,
nem precisa comentar, claro que sou organizada, mas cá
entre nós, sempre, literalmente sempre, falta algo!
Depois vem o tintureiro - parada obrigatória para quem
não tem Edileuza por perto. Sim, não é
todo dia, mas quase dia sim, dia não.
.
. . . Tem
correio, são 5 morando na casa e aqui se paga conta
via correio, já viu, né? Resumindo: chego em
casa por volta das 9:30/10:00 hs, quando entro na garagem,
a pilha de roupa quase que sorrindo para mim: "me lava,
me passa"! Ufa, lá para 11:00hs vou dar uma lidinha
na matéria, tudo muito interessante, me aprofundo,
quando vou ver, o estomago está roncando
ah,
saudade da mesa já posta, cheirinho de comida no ar,
a
única tarefa de sentar e comer, sem querer saber como
a louça vai ser lavada
! Bem já é
de tarde, as plantas precisam ser aguadas, os cachorros tratados,
passeados, os dejetos recolhidos, e já é necessário
pensar no jantar afinal marido novo requer janta quentinha
fresquinha feita na hora.
.
. . . Cá
entre nós, tarefa semi-árdua para quem teve
vida de princesa e viveu no meio de maravilhosas empregadas.
Depois do jantar, regado a um papo gostoso é necessário
exercitar um pouco - afinal já está provado
que faz bem até para os neurônios, depois verifico
email, respondo carta, alguém liga, mal vejo TV e já
está na hora do banho e de ir para horizontal. No dia
seguinte, tudo recomeça de novo. Sem falar nas frases
das queridas filhas: - com muito carinho, claro - tipo: já
que voce está em casa, voce poderia
já
que voce "não está fazendo nada" será
que daria
aproveitando que você tem o dia todo
livre, eu precisava
.
. . . Fuji:
aluguei um quarto numa cidade aqui perto, Davis, e só
voltava final de semana, fiquei por lá 3 meses e só
dei o direito de me ligarem dia sim dia não, salvo
emergências. Valeu a pena: passei na prova! Na teorica,
bem entendido, dizem, a mais difícil.
.
. . . Só
que até agora não entendi, afinal, o que é
que eu fazia de errado, que não dava tempo para estudar?
.
. . . Se
me dão direito a um palpite: síndrome da abstinência
de Edileuza!
|