|
Terry Françoise
Essa, eu adorei, literalmente! Como voces sabem, aqui se processa muito contra isso e contra aquilo, mas essa está difícil de resolver…
Na minha longa preparação para se tornar veterinária por aqui, acabei indo para o "Central Valley" que não é nada mais nada menos do que uma área árida no meio da California. Bastante sem graça, muito plano, naquela cor que até hoje não tenho certeza se é marrom acinzentado ou cinza amarronzado, é uma área de agricultura intensa (tudo irrigado – construiram – ou desviaram ) um rio para tal fim. Lá se encontra o maior rebanho leiteiro da Califórnia.
Fazenda média tem duas mil vacas lactando, pequena, tem mil, sendo muito comum fazendas com quatro mil vacas lactando. Nessas, as salas de ordenhas não descansam nunca, tipo 24 horas. É tudo tão grandioso, tanta vaca que dá tontura, não tenho idéia de como se administra tudo isso. Claro, tudo estilo americano, funciona tim tim por tim tim. Câmeras filmadoras por todo canto, galpões e mais galpões para abrigar coisas que nem pensei que precisava: vi dez, -d-e-z- máquinas de lavar só para lavar aquela toalinha branca com que se seca o úbere das vacas. Todas funcionando, diga-se de passagem. Cada fazenda tem seu nutricionista, veterinário, zootecnista, inúmeros tratadores e uns vários administradores. Ah, um detalhe que achei engraçado: se o dono da tal fazenda de quatro mil vacas lactando resolver tomar "um leitinho", vai ter que ir no super mercado comprar, pois nem ele tem a chave do tanque do leite: só o motorista da indústria láctea – altíssimo funcionário por sinal – a possui. Só ele abre o tanque de leite, mais ninguém.
Pois eis que resolveram fazer uma propaganda no rádio para estimular o consumo de leite e queijo produzido por aqui. Na tal propaganda, o artista fala: consuma o leite da vaca feliz da Califórnia. Não demorou muito: processaram imediatamente dizendo que a vaca não era feliz, sendo portanto propaganda enganosa. E agora, o que que a vaca pensa? Essa tá difícil de resolver…
Eu, acho que a vaca é muito infeliz, o que vi, dá vontade de chorar. Minha opinião: nasce a futura vaca, uma simpática bezerrinha. A coitada tem o direito de usufruir o carinho materno por – nas fazendas mais tolerantes 4 horas, nas menos, 2 horas. Depois, pimba, um mexicano vem com uma garrafada de colostro e a tal bezerrinha é enjaulada numa gaiolinha onde ficará até em média 90 dias. Claro, ela não tem o direito de beber leite, quem é do ramo nem se espanta.
Ela bebe um troço que imita o leite. Pode ser feliz? Depois vai crescendo sem saber o que é pastar, sem saber o que é pisar num capim, sem ver nada verde, nem no horizonte. Feliz? Duvido… Aí a vida dela complica um pouco: é inseminada mas não vai poder curtir ser mãe, apenas naquelas míseras horinhas. Depois a vida dela se transforma numa máquina: produzir leite em grande quantidade, absurdas quantitades e ser ordenhada duas ou três vezes ao dia. A vida dela? Pequena: em média a vaca fica 2,8% anos no rebanho e vai virar hambúrguer de McDonalds. Ela não tem o direito de expressar seus gens, não pasta, não vê o horizonte, anda muito pouco e produz demais. Não pode ser feliz… Aí vem os produtores dizendo que claro que são felizes: não se preocupam com predadores (a não ser os próprios proprietários!), não precisam andar para procurar comida (mas elas gostam de andar!!!), e a comida vem prontinha (que elas não escolheram). Elas tem saude (isso tem), ficam prenhes, portanto são felizes. Ai, ai, ai…!
A justiça não conseguiu decidir ainda o veredicto. E voce caro leitor, o que acha, elas são ou não são felizes?
Terry Françoise, veterinária, prudentina radicada nos EUA. |