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ESPAÇO LITERÁRIO

. . HOMENAGEM AOS IMIGRANTES

. . A visita deles era sempre muito esperada.

. . Eles levavam sempre as novidades da civilização para as regiões mais distantes , até aos ermos dos sertões. Todos aguardavam as suas chegadas, limpando a casa, esperando o momento em que se abrissem suas malas maravilhosas e começassem a desfilar todas aquelas coisas tão lindas e necessárias a todos os lares.

. . Eram malas e baús, trazidos às vezes no lombo de animais, quando vinham de muito longe e já tinham alguma independência econômica, ou então quando mascate novo, recém-chegado do Líbano, nas suas próprias costas, amarradas com correias e também em ambas as mãos.

. . No mínimo havia sempre água fresca e um cafezinho à mesa, além de uns quitutes e, dependendo da hora, um almoço com um frango caipira bem no tempero, esperando-os.

. . De imediato os seus modos de falar bem expansivos, cumprimentando as pessoas com um linguajar característico, esnobando em elogios sobretudo para as crianças, distribuindo-lhes balas doces, beijinhos e sorrisos.

. . E daquelas malas e baús, surrados pelas viagens, ao serem abertos, vinham aqueles odores de coisas novas, o perfume das essências dos sabonetes, novos aromas e aquela carícia dos tecidos de seda para as mulheres, dos terninhos para as crianças, alfinetes, chocalhos, presilhas, arcos de cabeça, e das camisas e calças para os homens, cortes de casimira inglesa, canivetes, facas, bingas . E tudo mostrado com maestria, sensibilidade, arte, um desfilar de qualidades e virtudes daquelas coisas que pareciam mesmo das arábias.

. . E começavam as vendas: rendas, carretéis e retroses de linhas de todas as cores, botões, colchetes, broches, elásticos, sabonetes, lenços perfumados, blusas, vestidos, saias, calcinhas,camisolas, redes para cabelos e meias longas, perfumes que contagiavam todo o ambiente, roupas para batizado, calçados, enxovais para as noivas, chales, toalhas, roupas para cama, mesa e banho, demais artigos de toucador, inclusive o pó de arroz cheiroso para as moças e senhoras, a água de cheiro, rouge, baton, as lavandas, a brilhantina, chapéus, pincéis para barba, tesouras solingen, navalhas e até imagens de santos católicos. Eu mesmo adotei uma que minha mãe adquiriu de um sírio mascate: era uma imagem de Santo Expedito. Ele disse que o santo ajudava as crianças no estudo e eu passei boa parte da vida de estudante rezando para que ele me ajudasse nas provas. E valeu!

. . Feitas as vendas, discutidos os preços e acertado tudo, arrumavam-se nas malas as mercadorias não vendidas, anotadas as encomendas para futuras visitas, e após as despedidas sempre cordiais lá se iam os nossos amigos mascates continuando suas andanças para novos e longos caminhos até que se lhes esgotassem os estoques quando então retornavam às fábricas e fornecedores para novos suprimentos.

. . Desde que chegaram de suas terras muito distantes no oriente, trazendo nos corações oprimidos muitas saudades, cantarolando nos percursos as cantigas de suas aldeias, lá iam e vinham os nossos amigos sírio-libaneses, como gostavam de ser chamados, criando condições de poderem um dia abrir nas cidades as suas lojas e trazerem todos os seus familiares que tão distante ficaram e de progredirem neste país que escolheram como nova pátria. E foi o que fizeram e como se deram bem no Brasil.

. . Devemos muito a todos os imigrantes de todas as nacionalidaes, raças e credos religiosos que se integraram à vida brasileira. A eles devemos muito do nossos progresso, dos nossos usos e costumes e tradições.

. . Como dizia o nosso poeta, creio que Cassiano Ricardo: "Imigrante é aquele que traz nos remendos de suas roupas, as bandeiras de todas as pátrias". Muito propícia a colocação porque a quase totalidade dos que aqui aportaram eram pessoas pobres que por diversas razões: econômica, política, social, religiosa, guerras, terremotos, hecatombes, decidiram para aqui vir, outros até compulsoriamente na condição de escravos, como os negros.

. . Nas pessoas dos sírio-libaneses, antigos mascates, profissão hoje tão vulgarizada pelos nossos vendedores ambulantes, sacoleiros,camelôs, que são tantos até por razão do desemprego que há no Brasil, nós saudamos a todos os imigrantes que para cá vieram para trabalhar, honrar e engradecer este país.

 

... José Dassi
... ..josedassi@uol.com.br

 

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