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ESPAÇO LITERÁRIO
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Reunião do Conselho Indígena
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. Um trovão forte ribomba numa região central do Estado,
levando a voz forte e irada de Deus Tupã a todos os quadrantes
e rincões, perceptível a todos os representantes tribais mas
insensível aos ouvidos moucos daqueles dominados pela ganância,
pelo progresso e a tecnologia.
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Era hora de reunir o grande conselho indígena, à luz
de enorme fogueira, ali na espinha dorsal do Rio Tietê, antigo
Anhembi, fumar o cachimbo da paz e discutir os assuntos relativos
à preservação do meio ambiente. E chegam os chefes e os anciões
das tribos remanescentes muito mais para avaliar os efeitos
danosos do homem branco sobre o ecossistema do que impor qualquer
norma de conduta mesmo porque não disporiam de qualquer poder
coercitivo.
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Aí estão os botocudos, caetés, caingangues, coroados,
guaianases, guaicurus, tamoios, tapuios, tupinambás e de outras
tribos tupi-guaranis.
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Após o cerimonial de instalação com o ritual próprio,
segundo as tradições milenares, sentam-se em circulo os chefes
tribais, ladeados pelos anciões, e ouvem atentamente, os relatos
dos chefes do norte, sul, leste e oeste e depois do nordeste,
sudeste, noroeste....
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E foram contundentes suas narrativas, nos temas baixo,
como seguem:
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Colonização
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1.º - Com o desvario colonizador dos homens brancos,
grandes áreas verdes foram dizimadas, queimadas e vieram os
plantios de grandes fazendas, a maior parte de cafezais;
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2.º - grandes, médias e pequenas cidades foram se desenvolvendo
ao longo dos espigões, sem muito planejamento, carreando os
lucros aos loteadores e a incumbência da estrutura às células
político-administrativas representadas pelos municípios;
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3.º - as grandes fortunas acumuladas por fazendeiros
geraram indústrias, bancos, estabelecimentos comerciais, empresas
de serviços gerais, escritórios, etc., inicialmente concentrados
na capital e outras grandes cidades; estas foram se expandindo
e se agigantando a ponto de se alargarem desordenadamente
em sua periferias;
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4.º - colonos, parceiros, meeiros, da área rural, em
grande parte constituídos de imigrantes europeus e orientais,
na ânsia de progredir iniciaram a marcha para o oeste, atingindo
as barrancas do Rio Paraná, abrindo pequenas propriedades
e dando origem às cidades novas. Alguns afortunados, em razão
do compadrio político, ganharam terras devolutas em quantidades,
formando latifúndios hoje objeto de questionamentos pelos
sem terra;
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Renovação agrária
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5.º - porque o café, deixou de ser o item ideal para
as exportações seu cultivo foi sendo substituído por outras
lavouras como cana de açúcar, algodão,erva mate, cereais,
milho, soja, trigo, hortaliças e legumes, laranjais e grandes
pastagens, tudo para suprir as populações urbanas cada vez
maiores e para concorrer às exportações ;
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6.º - para recuperar as terras que foram perdendo os
seus nutrientes naturais foram incentivadas aplicações de
produtos químicos e industrializados e para combater pragas
- os herbicidas, inseticidas , usados sem muito critério,
acabando por destruir os micro-organismos da terra, insetos,
aves e animais encarregados do controle biológico do ecossistema
e fazendo muitas vítimas humanas pela intoxicação;
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7.º - a instituição do Estatuto da Terra incentivou
a mecanização e a dispensa dos trabalhadores rurais que passaram
a inflar a periferia das cidades. Estas não estavam preparadas
para lidar com os bolsões de pobreza e com os problemas sociais
que eles acarretam. Nenhuma crítica à mecanização tecnicamente
executada mas àquela que simplesmente revolveu a terra que
foi levada pelas águas pluviais assoreando os rios;
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A industrialização e a deturpação ambiental
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8.º - o processo de industrialização das grandes cidades
trouxe a poluição do meio ambiente motivado pelo derramamento
de resíduos químicos na natureza, atingindo mananciais, e
a expedição de gases poluentes na atmosfera. A tal ponto os
rios foram contaminados que, em muitos trechos deles, são
cobertos por uma espuma fétida e nociva às populações nas
proximidades da Grande São Paulo;
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9.º - loteamentos clandestinos e invasões dos sem teto
acabaram, por inércia fiscalizadora dos poderes públicos,
gerando construções em áreas de mananciais da capital e de
reservas legais da Serra da Cantareira, trazendo problemas
de poluição, a exemplo do que ocorre com a Represa do Guarapiranga;
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10.º - a destruição de anteparos naturais como morros
e serras para a extração de pedras , até com o uso de explosivos,
originou sérios problemas de poluição além de dar origem à
formação de tufões antes desconhecidos no país. O mesmo se
diga em relação às caieiras, às fábricas de cimento, às siderúrgicas,
extratoras de calcário, de minérios com uso de mercúrio, às
cerâmicas, olarias, cada qual, a seu modo, alterando e comprometendo
o meio ambiente;
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11.º - os desmatamentos em áreas de preservação, a
extração de palmitos, a caça e a pesca predatórias, os derramamentos
de produtos de petróleo em santuários ecológicos da região
sul, a barbárie, a pilhagem e a destruição em cavernas milenares
situadas em rotas de turismo e de visitação pública, tudo
isso comprometendo os princípios básicos e elementares da
ética humana já no segundo milênio da era Cristã;
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12.º - o abandono ao transporte ferroviário,com ressalva
para o metro e trens urbanos na capital, dando-se primazia
ao rodoviário, com exagerado crescimento da frota motorizada,
trouxe a poluição às grandes cidades que chega ao ponto crítico
na Capital, por ocasião das inversões térmicas que deixam
estagnadas imensas camadas de poluentes sobre São Paulo;
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Nossos rios de usos múltiplos
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13.º - o uso dos rios como meios de transporte, a exemplo
do Tietê, onde foram canalizados duzentos e trinta quilômetros,
para que a sua navegação fosse viável até o Rio Paraná e para
a instalação de usinas hidrelétricas como as de Barra Bonita,
Bariri, Ibitinga, Promissão, Nova Avanhandava, com barragens
e eclusas, criando problemas à proliferação dos peixes. Por
igual ocorreu com o Rio Paranapanema que há milênios vem dos
confins do Leste e atingia o Rio Paraná com enorme embocadura,
que acabou sendo represado em vários locais, entre outros,Salto
Grande,Chavantes, Iepê, Sandovalina e Rosana para o mesmo
objetivo, perdendo a sua fluidez e beleza;
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A morte dos rios na TV.
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14.º - a falta de cuidados com a preservação, descumprida
a obrigação de manterem suas margens com a necessária cobertura
vegetal nativa, acarretou a invasão dos rios por aluviões,
esgotos e lixos urbanos não biodegradáveis. A permissão de
extração de areias de seus leitos para construções causou
imensos estragos em seus cursos e sérios transtornos ao meio
ambiente, notadamente no Vale do Paraíba. Triste espetáculo
ver, em todo o Estado, antigos, piscosos e abundantes rios
transformados, em regos, sulcos, serpenteando a todo custo,
pedindo clemência, socorro, oxigênio para sobreviver. O assunto
foi tratado na novela “Terra Nostra”, ora em divulgação no
exterior.
CONCLUSÃO
DO CONSELHO
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O homem branco está indiferente às questões da natureza.
Hoje restam pequenas reservas naturais, nos pontos mais hostis,
onde ele ainda não encontrou fórmula de destruir para tirar
mais proveito. Para ele o Deus Tupã está velho e aos velhos
poucos dão a devida atenção.
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Os chefes e anciões das tribos indígenas hoje relegadas
ao esquecimento, sobrevivendo à custa dos seus produtos primitivos
do seu humilde artesanato, mesmo sofrendo a ação nefasta da
civilização branca, continuam, graças as suas tradições, despertos
e confiantes nos espíritos dominadores da natureza e na fé
inabalável do seu Deus Tupã!
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Fica consignada a advertência para a lei de causa e
efeito, considerando que a natureza é dinâmica – é como um
potro selvagem – não aceita a brida nem o arreio no lombo,
de repente dá um corcoveio e joga tudo pelos ares, ou, na
melhor das hipóteses, deixará de ser o habitat ideal para
os seres humanos, o paraíso que lhes legamos!
... José Dassi
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. . josedassi@uol.com.br
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