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ESPAÇO LITERÁRIO
O
trem da minha vida
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. Lá vinha o trem
ao longe como que deslizando sobre os trilhos de aço, avançando
pelas planícies, contornando serras, subindo encostas, engolindo
túneis, levando e trazendo gente em viagens de negócios, estudos,
férias, para consultas médicas, lua de mel e até para o trabalho.
Tal era a pontualidade de sua chegada às estações que servia
para acertar a hora dos relógios.
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. Os trens cargueiros
transportavam grande diversidade de produtos em vagões fechados,
abertos, gaiolas, tanques, de todos os formatos enfim, dependendo
da natureza das mercadorias transportadas.
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. A figura do trem
impressionava pela locomotiva, possante, fumegante, espargindo
energia, cheia de braços, rodas, um monstro de aço domado
pela perícia do maquinista que a fazia parar, avançar, resfolegar,
apitar e frear seu ímpeto nas estações.
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. Em alguns trechos
das ferrovias deslizavam em bitolas estreitas, ainda ao tempo
da “ maria-fumaça”, locomotiva movida à lenha atiçada às suas
fornalhas pelo foguista, soltando fagulhas no ar que levadas
pelo vento, entravam pelas janelas e podiam sujar a roupa
dos mais incautos. Em outros, de bitolas largas, com locomotivas
movidas a diesel ou a eletricidade, mais confortáveis, rápidas
e higiênicas.
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. Nos trens de
passageiros, logo após a locomotiva e o carro de bagagens,vinham
os vagões de segunda classe, com bancos de madeira , seguidos
pelos vagões de primeira classe, com poltronas para as pessoas
mais abastadas e após o carro restaurante Nos períodos noturnos
havia ainda, no final, os vagões dormitórios com cabines individuais
ou as com leitos superpostos chamados "gildas”.
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. Para a segurança,
fiscalização e conforto das pessoas havia todo um aparato
de profissionais especializados a serviço nas composições,
como os conferentes de bilhetes, fiscais, garçons servindo
café, chocolate, doces, lanches e refeições, vendedores de
jornais, almanaques e revistas.
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. Nos carros restaurantes
servia-se, aos clientes da primeira classe, refeições à la
carte, bebidas alcoólicas, refrigerantes, águas minerais,
etc. com um corpo seleto de garçons. Nos dormitórios os usuários
eram recebidos e atendidos pelos mordomos.
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. Em terra, nas
estações, havia uma outra estrutura comandada pelo Chefe da
Estação, incluindo vendedores de bilhetes, mensageiros que
atendiam o telefone (outrora o telégrafo), despachantes de
cargas e encomendas, pessoal encarregado da sinalização, guarda-freios,
etc.
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. Com a expansão
das rodovias asfaltadas em todo o Estado, os ônibus foram
sucedendo os trens no transporte de passageiros e o negócio
dos carros de passeio, tão a gosto das multinacionais, expandiu-se
exorbitantemente a cada ano, criando o caos que vemos hoje
em cidades e rodovias.
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. Os veículos de
transporte substituíram os trens de carga e hoje os comboios
de carretas de alta tonelagem exigem constante renovação das
vias asfaltadas e uma proliferação de pedágios sem fim.
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. O Estado não
fez investimentos nas áreas de transporte ferroviário; deixou
de fazer retificação dos traçados e de optar por caminhos
mais retos, ainda que desprezando pequenas localidades, a
fim de obter maior rapidez nos transcursos e de concorrer
com os grandes empresários do transporte rodoviário. E como
conseqüência veio a derrocada e sucateamento de toda a malha
ferroviária que afinal foi privatizada e hoje aí está entregue
ao descaso, à pilhagem, à invasão dos sem teto e a toda sorte
de vandalismo.
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. O que os antigos
fizeram com carrocinhas puxadas a burros e com o trabalho
manual,os novos governos deixaram de fazer, contando com todo
o aparato técnico das grandes construtoras.
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. Falou mais alto
o interesse das multinacionais do petróleo, do aço, dos veículos
motorizados e dos proprietários da empresas de ônibus, algumas
das quais já, a esta altura, entrando também para a exploração
de linhas aéreas para transporte de passageiros e cargas.
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. Enquanto os países
mais evoluídos do mundo mantiveram e desenvolveram seu transporte
ferroviário a ponto de conceberem o trem-bala rapidíssimo,a
exemplo do Japão, Inglaterra e França, etc., no Brasil ficamos
à mercê de redes superadas e sucateadas.
.
. Neste estado
caótico de coisas, faz pena ver as grandes e médias cidades
atravessadas por estradas de ferro fantasmas, criando-lhes
sérios transtornos ao trânsito de veículos e de pedestres,
assistindo desoladas os trilhos paralelos estendidos nos leitos
das vias férreas, invadidos pelo mato e sobre dormentes em
decomposição, quando não arrancados e substituídos por outros
de qualidade inferior pelas empresas adquirentes, a exemplo
do que foi denunciado por ferroviários de Presidente Prudente,
sob apuração pelo Ministério Público.
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. Assim, na qualidade
de observador que assistiu os tempos áureos das ferrovias,
resta-me reconhecer com saudade que o trem da minha vida já
passou!
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José Dassi
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..josedassi@uol.com.br
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