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Ninguém é
poeta por acaso. Os primeiros poemas são lavras
mínimas. Talvez até odes avulsas. Quando
o poeta aprendiz pega o manejo daquilo que se lhe é
íntimo, vira arauto pós-moderno e, no
fazer poético propriamente dito, interpreta a
alma das coisas, traduz o indizível, lastra-se
por atacado, errando mãos e tecendo o indefinido.
Sensível pela própria natureza.
Como poesia não
é necessariamente rima, métrica, mas a
Poesia mesmo, em si, com bilros e rocas, ele vai, feito
singer íntimo, compondo versos do ser de si,
ora verde, ora na moenda do Sentir, tocando o sagrado,
porque arte é coisa espiritual, fogueiras de
vaidades a parte. Assim, tenho para comigo, que Poeta
simplesmente É.
E isso por si só
já é muito. Enluos, ninhais, encantários.
Mais as sofrências do desdizer, racezas, tristices
pegajentas como se tivesse o dom-direito de sentir primeiro,
sofrer mais, carregar o mundo nas costas. E ele, o mundo,
como disse Drumond de Andrade (nosso maior poeta desse
lado do oceano), não pesa mais do que a mão
de uma criança.
Depois que o poeta pega
o traquejo da palavra, no frever o íntimo, com
sua angústia-vívere, com sua solidão-albatróz,
vai se norteando por mundos e fungos. Antena da época,
só para citar Rimbaud, o poeta cisma, reina,
orna.
Com heterônimos
(como Pessoa) ou de próprio punho e cunha, com
sua poesia descalça, rueira, com sua maneira
diferente de ver-(pensar) as coisas, vai vertendo salmos,
mantras, blues e acontecências adjacentes. E respeita
sua tristeza que é sábia. Com sua poesia
feito metralhadore cheia de lágrimas, no confeito
do sentir e escrever, o poeta mal cabe em si quando
cria, porque, afinal, nesses tempos tenebrosos de muito
ouro e pouco pão (neoliberalismo globalizador),
ninguém é de ferro e, perdão, o
bom cabrito é o que berra. Ou, como dizem os
poetas brasileirinhos, FAZ ESCURO MAS EU CANTO - Ou,
ainda, o importante é que a Poesia sobreviva.
Citando Manuel Bandeira:
não acredito em arte que não seja libertação.
Daí que o poeta se faz - e de perto ninguém
é normal, citando Caetano Veloso - ele pode se
aventurar em naus catarinetas de prosas surrealistas,
em naus (dos insensatos) de crônicas marginais,
haikais clandestinos, porque quem sabe a Poesia, deita
e rola, conhece sinais e parecenças, voa. E destila
o vinho-verbo em prosa, ficcção, ensaio,
romances, porque poesia é esteio, epifania, bordel
excelência, lagar, estuário, hangar de
todas as honras. Quase todos os poetas escrevem bem
qualquer coisa. Meno male.
Já, nem todo Ser
que só faz prosa, se aventura (com o cinzél
do íntimo) em poetar versos emplumados de contentezas
e filosofias que são confeitos do poema mal cabendo
em si. Amigos meus, poetas radicais (e não somos
todos?), sobrevivem bem em todas as áreas, bons
jornalistas, ótimos cronistas, compõem
e cantam, se deixarem - ai os arautos dos deuses - até
mesmo fazem strepe-tease ou, dando nós em pingos
d´água, maroteiam sacolejantes em mambos,
calipsos e twistes. Os proseadores não ousam
tanto.
Escrevem muito, bem,
gardências narrativas, mas sabem que as águas
dos poemas são lingotes pingando luz de algas
íntimas. Isso pelo menos penso eu, pequeno poeta
que tenho muito que aprender, boêmio pela própria
natureza...
E se for para o bem da
irrazão com curtumes, decantários ou estrias
de alma, digam ao povo que Poeto. Aliás, tenho
um poemeto antigo (quase haikai) que
digo:
Naufrágio no saveiro
Poetas
E grávidas primeiro
O último a sair apague o sol.
(Rascunho Um - Texto Inédito (feito às
pressas) da Série: Confesso Que
Bebi)
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