Moradora da cidade de São Paulo, é professora de fotografia e se especializou na área pelo Senac. Hoje trabalha com agências de publicidade, atores e modelo e paralelamente realiza trabalhos individuais da representação do corpo humano nu.
O trabalho da fotógrafa Maira Barreto, intitulado: ''Corpos de Luz'', propõe uma visão do corpo numa simulação de desenho do esqueleto humano com a luz.
A técnica usada para resultar no trabalho fotográfico foi o light-painting. “Com uma lanterna desenhei sobre o corpo sem deixar de mostrar as curvas reais.” diz a fotógrafa.
As posições aguçam a curiosidade e “mostram sem querer mostrar.” É uma releitura do corpo sem a banalização com que ele é tratado atualmente.
”Abordo a questão da moda na sociedade que pode ser observada claramente nas atitudes das pessoas, nas tendências para se sentir incluído, na ditadura da beleza, nas tatuagens e, é claro, na fotografia.” completa Maira.
A mídia é a maior responsável pela divulgação da moda e a internet veio como instrumento para tornar ainda mais veloz esse acesso.
A história
O corpo humano sempre foi um assunto tratado nas diversas culturas de diferentes maneiras. Seja na pintura, na escultura ou na fotografia, sua representação é importante para entender o homem e seus processos de transformação.
Com o surgimento da fotografia no inicio do século XIX, o corpo ganhou outro caráter, passou a ser um espelho do homem.
A partir da renascença ele deixou de ser sagrado e passou a ser examinado com manipulações médicas, estéticas e artísticas tornando-se um produto industrial.
A fotografia do corpo passou a servir às ciências médicas, sociais e às artes visuais. Sem valor documental ou cientifico, a fotografia erótica ganhou espaço na indústria cultural.
As mudanças comportamentais e de valores marcam os anos 1990 com o mundo fashion que une moda e fotografia para concretizar essa nova tendência.
Sabemos que antes de qualquer opinião, estética ou não, o que primeiro nos invade é a sensação, e que a base de todas as nossas sensações é o corpo físico. É através dele que, mesmo inconscientemente se manifesta tudo o que é interno a nós. (PIRES, 2005, p.20)
De uma maneira despretensiosa comecei a fotografar amigos e conhecidos num projeto intitulado inicialmente light-painting.
Após observar as imagens produzidas, pude perceber que a maioria das pessoas tinham tatuagens, algumas pequenas e outras nem tanto.
Conclui que todos os fotografados com tatuagem pertenciam a uma nova tendência, a tatuagem como moda.
A moda permeia por todas as sociedades, não apenas com as produções de estilistas que regem as tendências de cada estação, mas também, nas atitudes em relação ao tratamento familiar, no trabalho e na escola.
A vestimenta sugere o estilo de vida da pessoa, sua classe social, seus valores, um pré-julgamento. Geralmente, é o que primeiro se repara ao ver a pessoa pela primeira vez. Como Elizabete Wilson (2002, s.p.) expõe:
"Se o corpo, com seus orifícios abertos, é em sí mesmo perigosamente ambíguo, então a roupa, que é uma extensão do corpo, mas que não é
exatamente uma parte dele, não só liga esse corpo ao mundo social como também o separa ainda mais nitidamente dele. O vestuário constitui a
fronteira entre o eu e o não-eu.”
A tatuagem surge como uma maneira de expressar sentimentos e lembranças e marca uma nova era. A sociedade capitalista rege os hábitos em todos os sentidos da vida do ser humano. A ditadura da beleza, hoje é um dos fatores que mais influenciam a sociedade e faz com que a indústria através do mercado gere lucros impressionantes. Beleza e poder interligados.
Os veículos de comunicação fazem parte desse esforço da indústria sendo responsáveis pela disseminação da moda no mundo.
São inúmeras as revistas de beleza, moda, nu e também os reality shows a respeito de cirurgias plásticas, tatuagens e modelos, que constroem padrões de corpos ideais.
O canal de teve People and Art tem o reality show Miami Ink, a respeito de tatuagem, na Sony um programa sobre modelos, o American's next top model e no E! Specials, um reality show sobre cirurgia plástica chamado Dr. 90210. A audiência desses tipos de programa é altíssima, o que indica o interesse da população a essas novas tendências.
Esta idéia de um corpo construído com a cirurgia plástica, faz dele um corpo estático, feito para ser apreciado e não vivido. O corpo em movimento foi tratado pioneiramente nos trabalhos fotográficos de Eadweard J. Muybridge e Etienne-Jules Marey, com a foto-sequencial, que simboliza a velocidade das relações do homem na sociedade industrializada.
As diversas intervenções do corpo acabam se relacionando em algum momento. O pensamento de que tatuagem seria feita apenas por presidiários mudou, hoje não apenas o jovem busca essa expressão corporal, mas também adultos e idosos. É uma tendência que junto com a moda tem crescido nos últimos anos.
O padrão de beleza da mulher mudou durante os séculos. No passado uma mulher com mais curvas e carne era mais valorizada. Na pintura dos grandes mestres, podemos observar a figura da mulher da época como os nus de Goya por exemplo.
O padrão da beleza, hoje vende mulheres cada vez mais magras, com muito peito, muitas vezes decorrentes de próteses e com aspecto artificial devido ao botox.
Além da beleza, temos também a busca pela juventude eterna. "O homem contemporâneo é convidado a construir o corpo, conservar a forma, modelar sua aparência, ocultar o envelhecimento..." (Breton, 1990, p.30)
Todos se preocupam com a opinião dos outros em relação à aparência, em tal intensidade que às vezes ultrapassam vários princípios morais e éticos.
Se as fronteiras do homem são trocadas pela forma que o compõe, tira dele ou acrescentar nele outros componentes metaformoseia a sua identidade pessoal e as referencias que lhe dizem respeito diante dos outros. (Breton, 1990, p.223).
Todas as imagens acabam apelando para o sexo, um sexo fácil, sem sentimento, sem amor, nem troca, "... Imagens reluzentes de moças atrevidas introduzem uma nova sensação de modernidade e independências femininas nas páginas das revistas de moda." (Arnold, 2002, p.50.), na sociedade de consumo procura-se essa satisfação rápida e sem compromisso e busca desta maneira satisfazer seus anseios e desejos como no sexo. A coisificação das relações.
Não caberia aqui escrever um capitulo sobre moda, porque reflito sobre a moda no comportamento humano, nas tendências de como se enquadrar na sociedade a partir de tratamentos estéticos e imprimir marcas através de tatuagens. Como sintetiza Beatriz Ferreira Pires:
"Moda e mídia associadas buscam romper tabus, denunciar os preconceitos, liberar as fantasias, modificar os costumes, deixar evidente a existência de ambigüidades... Estar na moda é ter um comportamento condizente com a realidade do momento, cuja duração é totalmente imprevisível." (PIRES, 2005, s.p.)
Conclusão
Nesse ensaio fotográfico procurei abordar o corpo numa visão diferente do tratado pela indústria cultural.
Um corpo que o mercado não vende, nego sua apropriação e mostro-o sem vulgarizá-lo, evidenciando-o.
Com base em estudos do corpo nas pinturas e esculturas do século V a.C. e da Primeira Renascença, criei imagens sem uma sensualidade estereotipada como as fotos de nu para revista.
Ao tentar transformar a imagem e o corpo através do desenho com a luz, a partir de um condicionamento técnico obtido com a prática, me deparei com duas vertentes: a razão e o gesto. De acordo com Stelarc, não há pensamento sem corpo.
Numa tentativa de organizar racionalmente, para que essa imagem seja reconhecida tanto pelo tato quanto pelo olho, encontrei uma nova visão sobre a matéria onde a luz que emana dessa foto e as poses geram um estranhamento, um 'desenho inconcluso'.
Cecília Salles denomina a matéria como: '... Tudo aquilo que o artista recorre para a concretização de sua obra: o que ele escolhe, manipula e transforma em nome de sua necessidade; aquilo que auxilia o artista a dar corpo a sua obra' (Salles, 1997, p.138).
Assim como a tela é para o pintor, o corpo é o meu suporte, e a tinta usada para fixar a imagem, é substituída pela luz para conferir força e personalidade, para incutir novas possibilidades de pensar algo novo.
Já que vivemos na era digital e a propagação da informação se torna mais veloz a cada dia, sugeri um contraponto a essa rapidez para refletir sobre as questões do corpo, já que o assunto corpo está tão em moda. Como Mesquita afirma: a moda permite "a ilusão de um outro ser" (2004, pg. 59).
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