*DR. AUGUSTO BARRETO
“Admito que é inata em nós a estima pelo próprio corpo, admito que temos o dever de cuidar dele. Não nego que devamos dar-lhe atenção, mas nego que devamos ser seus escravos. Será escravo de muitos quem for escravo do próprio corpo, quem temer por ele em demasia, quem tudo fizer em função dele. Devemos proceder não como quem vive no interesse do corpo, mas simplesmente como quem não pode viver sem ele. Um excessivo interesse pelo corpo inquieta-nos com temores, carrega-nos de apreensões, expõe-nos aos insultos; o bem moral torna-se desprezível para aqueles que amam em excesso o corpo." Sêneca (filósofo)
“... quando eu era criança era muito gorda, nariguda, feia, as humilhações... menina não tem que ser feia, tem que ser sempre bonita, perfumada, ser vistosa... eu acho isso, e todo mundo acha, a sociedade cobra isso o tempo todo.” (Relato de uma paciente com bulimia nervosa durante uma sessão de psicoterapia)
Os Transtornos Alimentares são doenças psiquiátricas em que o indivíduo expressa no corpo, através de uma disfunção alimentar grave, alguma insatisfação de sua vida pessoal. Os transtornos alimentares são a Anorexia Nervosa, o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica e a Bulimia Nervosa, tema a ser abordado.
A bulimia como sintoma é conhecida há séculos, mas o termo Bulimia Nervosa como doença é recente, tendo aparecido na década de 40. O termo bulimia deriva de bou (grande quantidade de) ou boul (boi) e limos (fome).
O primeiro caso bem documentado a sugerir bulimia como uma doença é o caso de Ellen-West, paciente de Ludwig Biswanger, em 1914, onde são relatadas estratégias para perder peso, episódios de compulsão alimentar e vômitos auto-induzidos.
A Bulimia Nervosa (BN) é causada por uma combinação de múltiplos fatores, que incluem predisposições genéticas, traços de personalidade e padrões disfuncionais de relação familiar. A dieta pode exacerbar dificuldades pré-existentes e, em combinação com mudanças de vida e fatores estressantes, pode levar indivíduos suscetíveis a desenvolverem a doença.
Estima-se que a BN apareça em até 1% da população de mulheres jovens. Ela é mais prevalente em mulheres do que em homens, na proporção de 10:1.
Existe uma preocupação excessiva e persistente com o comer e um desejo irresistível por comida, sendo que a pessoa apresenta episódios de hiperfagia (ou ataques bulímicos), nos quais grandes quantidades de alimento são ingeridas em curtos períodos de tempo, que não visa apenas a saciar uma fome exagerada, mas atende a uma série de estados emocionais ou situações estressantes. Esses ataques bulímicos são geralmente secretos e rápidos. Durante esses episódios de compulsão alimentar aparece uma sensação de falta de controle sobre o comportamento alimentar (um sentimento de incapacidade de parar de comer ou de se controlar o que ou o quanto está comendo).
Como “estratégia” de não engordar, a pessoa desenvolve o comportamento de vômitos auto-induzidos, uso ou abuso de laxantes, períodos longos de jejum e uso de medicações anorexígenas como hormônios tireoidianos, anfetaminas e sibutramina.
Magreza e perda de peso são valores idealizados, em cuja busca os pacientes bulímicos se envolvem continuamente. Os pacientes têm fundamentalmente um auto-conceito negativo, que os leva a sentirem-se, invariavelmente, insatisfeitos consigo, o que, por sua vez, incentiva a importância exagerada devotada à aparência e ao peso, o uso de estratégias para alcançá-los (vômitos, laxativos, restrição alimentar), a culpa e auto-recriminação posterior, que implicam em auto-conceito ainda mais negativo, levando muitas dessas pessoas à depressão.
É evidente que esses comportamentos não estão apenas relacionados à causa corporal. É muito comum encontrar pacientes exibindo atitudes caóticas, não somente em relação a seus hábitos alimentares, mas também quanto ao estilo de vida como no trabalho, nas relações afetivas, pessoais e sociais. As relações familiares também não ficam atrás; as trocas e relações parentais são, na maioria das vezes, marcadas por baixos níveis de cumplicidade e respeito interpessoal entre os membros. As famílias das pacientes com Bulimia são descritas como perturbadas, mal organizadas e com dificuldade de expressão e afeto e cuidado.
Em associação com a BN podem aparecer outras condições psiquiátricas, como ansiedade, depressão, abuso de substâncias (álcool e drogas psicoestimulantes), além de transtornos da personalidade, como o TP Borderline.
O tratamento da Bulimia Nervosa envolve necessariamente uma equipe multidisciplinar especializada, composta geralmente por psiquiatra, clínico geral, nutricionista e psicoterapeuta. O tratamento clínico tem como meta o restabelecimento de um peso adequado e da condição física do indivíduo, assim como uma normalização da rotina alimentar. Na maioria das vezes o uso de medicações está associado ao tratamento psicoterapêutico, principalmente quando existe depressão associada. Em relação às questões psicológicas, a psicoterapia cognitiva propõe três fases sobrepostas de tratamento. Na primeira fase, o objetivo principal é educar o paciente sobre a bulimia nervosa e os processos psicológicos que a mantém. Os pacientes são auxiliados a regularizarem sua alimentação. Na segunda e na terceira fases, os procedimentos objetivam, principalmente, a reestruturação cognitiva, ou seja, o desenvolvimento de novas ferramentas e maneiras mais funcionais de lidar e resolver problemas, além da manutenção da mudança do hábito alimentar e prevenção de recaídas.
Existe um consenso atual de vários pesquisadores na área de transtornos alimentares é de que a terapia cognitiva (TC) constitui uma alternativa de tratamento da bulimia que apresenta resultados mais rápidos e eficientes do que outras abordagens psicoterapêuticas, sugerindo que a terapia cognitiva, associada ou não à medicamentos, deve ser considerada tratamento psicoterapêutico de escolha para esse distúrbio de alimentação.
Além disso, na maioria das vezes é necessário também abordar a família e os padrões de interação que propiciam o aparecimento e a perpetuação dos sintomas alimentares.
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