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Corrida 7: genética e desempenho

Prof. Dr. Jair Rodrigues Garcia Junior

Este texto é sobre corrida, mas começemos com um exemplo da natação, que pode ser bem ilustrativo. Nos Jogos Olímpicos de 1972 em Munique na Alemanha, o nadador americano Mark Spitz venceu sete provas de natação e registrou sete recordes mundiais. Na época, certamente pensou-se que seria um feito imbatível. Para espanto de muitos, outro nadador americano, Michael Phelps, tentou suplantar o feito nos Jogos Olímpicos de 2004 em Atenas na Grecia, tendo conseguido a vitória em seis provas. Teimoso, tentou novamente no Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim na China, e consegui oito vitórias e seis recordes mundiais.
No esporte das corridas, o atleta etíope Haile Gebrselassie registrou a incrível melhor marca mundial (2h03m59s) na prova da Maratona disputada em Berlim em setembro de 2008. Como sempre acontece quando um recorde é superado, o horizonte dos limites do homem volta à discussão, os especialistas se vestem de otimismo e conjecturam sobre como, onde, quando e quem superará o recorde. Na maratona, a nova marca mágica da vez situa-se abaixo de 2h03m. Mas já há quem pense no limite final de uma corrida em menos de 2h.
Estes dois exemplos extremos de excelência em desempenho foram lembrados justamente para ressaltar a importância da genética. Entre dezenas ou centenas de milhares de atletas que treinam intensamente dia após dia, durante anos, apenas algum chegam ao que equivaleria ao Olimpo.
No caso de corridas prolongadas como meia-maratona, maratona e ultra-maratona, alguns fatores são determinantes para o desempenho de excelência: elevada proporção de fibras de contração lenta oxidativas (maratonistas chegam a ter 93% dessas fibras que possuem elevada capacidade de usar o O2), elevado limiar de lactato (acúmulo deste ácido que causa fadiga ocorre apenas em velocidade acima de 20 Km/h em maratonistas), elevado estoque de glicogênio (o combustível preferencial dos músculos) e elevada capacidade de mobilização e oxidação de gorduras (o combustível mais abundante no corpo, mesmo em atletas magros), elevado consumo de oxigênio (maratonistas de elite chegam aos 85 mL/kg/min, enquanto pessoas comuns não passam dos 50 mL/Kg/min) e capacidade para recuperação rápida após os treinamentos.
Já há algumas décadas atletas africanos sempre despontam entre os melhores nas corridas de fundo, mesmo vivendo em países muito pouco desenvolvidos. Muitos especialistas já se perguntaram a razão desse fato. Um estudo de Onywera (East African runners: their genetics, lifestyle and athletic prowess. Medicine and Sports Science, vol.54, 2009) aponta alguns fatores para esse sucesso, destacando a predisposição genética. Certamente é o caso do etíope Haile Gebrselassie.
Mas qual é a relação da genética com o desempenho físico? Principalmente os músculos, mas também outros tecidos e órgãos, contam com milhares de proteínas relacionadas à produção de energia e regulação dos sistemas fisiológicos durante o esforço. A adaptação destas proteínas (maior ou menor síntese, maior ou menor atividade) ao estímulo representado pelo treinamento é determinante para melhora do desempenho. Além das proteínas diretamente relacionadas com a contração muscular (actina e miosina), com o transporte de combustíveis energéticos (transportadora de glicose - GLUT e transportadora de lactato - MCT), outras proteínas estão sendo relacionadas com o desempenho, como a NADPH oxidase (metabolismo energético), enzima conversora de angiotensina (ECA, relacionada à circulação sanguínea), receptores ativados por fatores de proliferação de peroxissomos (PPARGC1A e PPARalfa, reguladores do metabolismo), receptores adrenérgicos beta 3 (ADRB3, receptor para ação do hormônio adrenalina), interleucina 6 (IL-6, espécie de hormônio do sistema imune), transportador de serotonina (5-HTT, proteína que transporta a serotonina) e monoamino oxidade (MAO-A, enzima que degrada a adrenalina, noradrenalina e serotonina).
Um estudo de Ahmetov e Rogozlin (Genes, athlete status and training. Medicine and Sports Science, vol.54, 2009) apresenta informações sobre a influência da genética no desempenho de atletas de elite. De acordo com a genética, os efeitos do treinamento na adaptação muscular e dos demais sistemas podem ser diferentes, resultando em variados graus de capacidades físicas. Em relação à genética existe ainda a possibilidade de polimorfismos, ou seja, alterações do DNA que resultam em alterações na produção de proteínas. Já estão identificados pelo menos 75 marcadores genéticos que indicam a capacidade de melhora de desempenho em resposta ao treinamento e também o potencial de um atleta alcançar um nível de elite.
Entre os genes para os quais já há evidências sobre sua influência no desempenho, está o gene do receptor adrenérgico beta 3 (ADRB3), cujo polimorfismo está associado com esforços de endurance (Santiago e col. Trp64Arg polymorphism in ADRB3 gene is associated with elite endurance performance. British Journal of Sports Medicine, 2009). Também o gene do fator induzido por hypoxia 1alfa (HIF1A), que regula a resposta à diminuição da oxigenação por meio da produção de proteínas de transporte de oxigênio e metabólicas, já foi associado como o desempenho em esportes de endurance (Doering e col. A common haplotype and the Pro582Ser polymorphism of the hypoxia-inducible factor-1alpha (HIF1A) gene in elite endurance athletes. Journal of Applied Physiology, 2010).
Ainda há poucos estudos nesta área, mas podem ser também considerados estudos importantes sobre distrofia e outras doenças musculares, cujas descobertas podem ajudar aos pacientes (terapia gênica) e também haver uma transferência para atletas. Certamente há pesquisadores estudando formas de realizar mutações gênicas que melhorem o desempenho, por isso já há também uma discussão sobre “doping genético”. Se, por um lado, a pessoa sofre uma mutação natural (polimorfismo) e tem melhorada alguma capacidade, pode ser considerada como privilegiada. Porém, se a mutação foi provocada por método terapêutico (doping genético), ficam caracterizados os aspecto artificial e antiético.
Portanto, se pensa em correr e ter um bom desempenho treine de forma séria e correta, alimente-se adequadamente e respeite seus tempos necessários de recuperação. Se for mais ambicioso e quiser correr lado a lado com os atletas de elite, faça o mesmo e ainda conte com a sorte de ter ganho na “loteria”, possuindo uma genética de campeão.
19 abril 2010
Serviço:

Prof. Dr. Jair R. Garcia Junior
Docente do Curso de Educação Física da UNOESTE
Consultor da Complet e WINNER Academia
e-mail: jgjunior@unoeste.br
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