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Deixem as Crianças Brincarem Livremente
Renata De Luca*

Uma pesquisa de ampla abordagem acaba de ser publicada na revista “Mente Cérebro” desse mês. Trata-se de um estudo conduzido pelo psiquiatra Stuart Brown envolvendo seis mil pessoas ao longo de 42 anos, entrevistadas sobre suas infâncias, ou mais especificamente sobre a “oportunidade de participar de atividades lúdicas desestruturadas (sem regras definidas)” quando eram crianças (Revista Mente Cérebro, ano XVIII, n216, pp26-35).
Um estudo em saúde mental que envolva esse número de pessoas e que seja conduzido por tanto tempo é algo raro e, além disso, o pesquisador conseguiu demonstrar algo observável, porém nunca captado em uma pesquisa tão extensa: a associação entre a falta de brincar na infância e o comportamento dos adultos nos quais essas crianças se transformarão. Há uma associação entre adultos desajustados e infelizes e crianças que não puderam brincar livremente.
Brown era conhecido anteriormente por pesquisas com universitários americanos que atiraram em seus colegas promovendo massacres inexplicáveis pela razão que conhecemos. Desses que, vira e mexe, aparecem na mídia e são muito parecidos: um jovem inexpressivo, quieto, daqueles que ninguém prestava muita atenção, promove um derramamento de sangue aleatório e seus motivos geralmente são frutos de delírios paranóicos. Brown descobriu algo interessante sobre esses estudantes: eles raramente brincavam quando crianças.
Provavelmente essa pesquisa tenha servido de inspiração para essa outra mais extensa e que não sofre interferências da variável psicopatológica, pois na primeira podemos argumentar que a loucura poderia ter causado os atos. Nessa segunda, o pesquisador entrevistou pessoas como nós, que temos nossos dias melhores e outros que não acordamos lá muito em paz com a vida. Entre essa gente “normalzinha”, ele descobriu que as mais infelizes tinham brincado menos livremente.
O estudo pode merecer questionamentos, mas mostrou algo observável por qualquer leigo: criança que brinca menos se transforma em um adulto com menor capacidade de resolver problemas e isso, repetidamente, gera infelicidade. Tristeza é diferente de infelicidade, pois é momentânea. A repetição dos mesmos problemas e a desesperança nas soluções geram um estado infeliz, que formará um ciclo vicioso, pois o infeliz produzirá infelicidade em tudo que põe a mão e isso servirá para confirmar sua certeza que ele nasceu para ser infeliz.
No Brasil temos dois grupos de crianças que não brincam livremente e é interessante notar como eles são opostos entre si: os mini-executivos de agenda cheia e aqueles que tristemente deixam de ser chamados de crianças para serem nomeados como menores. Os primeiros têm sempre um adulto estimulando, freqüentam escolas extracurriculares a semana inteira, compram brinquedos que não exigem criatividade e tem um excesso de jogos eletrônicos prontos e alienantes. Dificilmente vão a lugares públicos, andam descalços ou se sujam com tinta, massinha, terra; coisas que são detestadas por seus pais, pois fazem sujeira. Brincam com primos, três ou quatro amigos que possuem os mesmos brinquedos que eles, não necessitando assim fazer divisões indesejáveis. Aliás, é muito comum que não brinquem com grande parte dos seus brinquedos, que ficarão encaixotados até serem doados em campanhas voltadas para o segundo grupo, os menores.
Esses tiveram sua infância interrompida porque precisaram ir atrás do próprio sustento da maneira que for possível. São invisíveis aos olhos da grande maioria, que se protegem da visão cruel vendo-os como menores e não como crianças. Não têm brinquedos, freqüentam escolas ruins, andam pelas ruas e seus pais foram crianças parecidas com eles, ou melhor, menores também. Brincam pouco porque cuidam dos irmãos mais novos, fogem de pais violentos, buscam comida.
Seja de um grupo ou de outro, está demonstrado que não brincar livremente faz mal à saúde. Vale ainda ressaltar que para brincar dessa maneira não estruturada as crianças precisam de muito pouco, em geral, de espaço, de outra criança, poucos brinquedos simples e de uma tarde inteira pela frente, interrompida por um adulto que apareça apenas na hora do lanche.

Serviço:

* Renata De Luca é psicóloga, especialista em psicanálise de crianças e de adolescentes pela USP, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria. Contato: renatadeluca@uol.com.br