“Quarup” (1967), uma das obras literária mais importante de Antonio Callado, tem um personagem indígena, chamado Aicá. Em um emocionante fragmento de um capítulo, Aicá é visitado por um padre chamado Nando, um inquietante idealizador, que sai em defesa da classe indígena, levando em consideração seus direitos e também justiça dos menos favorecidos, dos excluídos e rejeitados pela sociedade. “Quarup” é o nome do ritual indígena que celebra os mortos e os traz de volta à vida.
Esse índio chamado Aicá, vive confinado à maloca nos fundos escuros do viver. Ele tem pênfigo foliáceo, uma doença caracterizada, assim meio por cima, não detalhando cientificamente, por aparecimentos de bolhas superficiais, que confluem e rompem-se facilmente, deixando a pele erosada (em carne viva) e formando regiões avermelhadas recobertas por escamas e crostas. As bolhas começam pela cabeça, pescoço e parte superior do tronco e depois se espalham por todo o corpo.
As lesões são dolorosas, com sensação de ardência e queimação, por esse motivo, denominada como “fogo selvagem”. Aicá, para sobreviver precisa se alimentar. Como está confinado, alguém leva comida para ele,todos os dias. Mas as pessoas levam e deixam lá. Por desconhecimento, nojo e medo, jogam a comida de qualquer jeito, como se Aicá fosse um animal feroz. E assim são marcados os dias de Aicá. Isolado, não tem contato com ninguém. “De uma rede, na penumbra, levantou-se um rapagão dos seus vinte e poucos anos”, era o primeiro contato do padre Nando com Aicá. Surpreendentemente alguém permaneceu mais que alguns segundos perto de Aicá.
Com o corpo coberto de lesões escamosas e com crostas, naturalmente as pessoas só fixarão seus olhares em direção das feridas. Nando consegue ver além das lesões, e olha para dentro dos olhos de Aicá. E olhando nos olhos de Aicá ele vê. Consegue ver do lado de dentro de Aicá. Ninguém teve o cuidado e a sensibilidade de perceber que além das crostas, do lado de dentro, existe alguém vivo. Nando viu além das crostas. Viu uma pessoa viva, com emoção, brilho nos olhos, desejos, ou seja, alguém com mais que um simples impulso de autoconservação da vida.
O contato e a visão emocional provocam e despertam vida. No dia a dia de nossas vivencias, para onde estamos olhando?O que olhamos?Olhamos para o que deve ser realmente visto?O ser humano é um mamífero que desde o nascimento, necessita de muitos cuidados. Os cuidados básicos, como alimentação, higiene e os mais importantes que são afeto, carinho, percepção, ou seja, sensibilidade, envolvimento e amor. Quando não são cumpridas as exigências naturais de sobrevivência há desestabilização psíquica, podendo levar, dependendo da faixa etária, até a uma condição de extrema ruptura ou fuga da realidade como autismo ou psicose.
É grande nossa necessidade de afeto, de relações vinculares, de encontro e sintonia desses olhares. Precisamos fazer leituras muitas vezes do que não está explicitamente expressado ou falado. Há situações de filhos, amigos, pai, mãe, filhas, esposos ou alguém qualquer da família, apresentar dificuldades das mais diversas, e é normal que esteja profundamente aflito e tenso. Invadido pela angustia, não expressa e não comunica, mas tem atuações e comportamentos que falam.
Muitas vezes as pessoas não falam, mas se houver sensibilidade e emoção do outro lado, realmente não precisarão de palavras. Haverá um entendimento e compreensão. Há pessoas que só entendem a linguagem do concreto, precisam ver para crer e é necessário que falem para um entendimento. E tem pessoas,que nem falando de forma direta,entendem. É preciso enxergar o lado de dentro!Por onde anda a sensibilidade?
Maria Angelica Amorieli Bongiovani-Psicóloga Clínica-Psicoterapeuta Psicanalítica - Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
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