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. O tema
do turista inocente é abordado no livro em "Uma
Aventura Legal, uma revisão crítica três
meses percorrendo 24 países da Europa e norte
da África.
. . .
. Por
definição, turista é aquele ser
estranho, com roupa colorida demais, máquina
fotográfica no pescoço e que fala de jeito
esquisito, comporta-se de forma desajeitada e sofre
de uma incorrigível ingenuidade. Por não
conhecer bem os locais que visita, ele fica superexposto
a perigos que os nativos normalmente sabem evitar.
. . .
. O
tema do turista inocente é abordado várias
vezes em "Uma Aventura Legal", de Sergio Motta.
O livro é uma revisão crítica de
tudo que viveu e observou o autor durante os três
meses durante os quais percorreu 24 países da
Europa e norte da África: da Finlândia
ao Egito, de Portugal à Polônia. E isso
tudo gastando, em média, quase simbólicos
dez dólares por dia.
. . .
. Pela
variedade de lugares visitados, dá para imaginar
que o mochileiro tenha se metido em algumas enrascadas,
pelo simples fato de estar inocente. Coisa rara em livros
de memórias sobre um evento qualquer, Sergio
não tenta pintar a si mesmo como um super-herói
em busca de mais uma aventura. Mostra-se um ser humano
exposto aos mesmos perigos que um turista normal costuma
encontrar.
. . .
. No
primeiro dia de viagem, ele começa a perceber
que, se não ficar esperto, terá de voltar
mais cedo para casa. Assim que desembarca em Lisboa,
o rapaz é induzido a dividir um táxi com
um cadete. Quando o outro desce, Sergio descobre que
estava no sentido oposto ao que precisava. No mesmo
dia, andando no centro da cidade com seu anfitrião
português, é abordado por um traficante
insistente.
. . .
. Em
Berlim, o viajante resolve se dar bem enquanto observa
um "malabarista" que aposta a dinheiro com
os pedestres. Julgando-se muito esperto, Sergio apostou
US$ 50 e perdeu. Não se conformou e, imaginando
ser apenas um caso de destreza, insistiu na aposta,
dobrando o prejuízo. Saiu de perto e ficou observando
o jogo de longe. "Só aí eu me dei
conta de que havia sido alvo de um golpe muito bem aplicado",
lamenta o rapaz. Para quem gastava 10 dólares
por dia, perder 100 num dia só foi um tremendo
revés.
. . .
. Segundo
Sergio, as principais armadilhas contra o turista, além
dos golpistas, são as regiões onde há
tráfico de drogas e prostituição,
muitas vezes próximas a áreas de interesse
turístico. O centro histórico de Gênova,
por exemplo, de noite, é tomado por prostitutas
e travestis. Assim que Sergio chegou em Amsterdã,
um homem o levou a um local. Sergio o seguiu achando
que estava lhe indicando uma hospedagem. Quando entrou
no lugar, viu gente se picando e saiu correndo.
. . .
. Outra
situação engraçada ocorreu em Roma.
Sergio e seu companheiro de viagem Leonardo mais uma
vez seguiram uma indicação de hotel barato.
Só quando entraram no lugar perceberam que o
barato, no caso, tinha dupla conotação.
Quase foram levados para o quarto com duas prostitutas.
Ainda na capital italiana, foram alvo das famosas ciganas
que abordam as pessoas e com movimentos rápidos
escondem carteiras ou outros objetos roubados em suas
saias largas.
. . .
. "Acho
que não é apenas uma questão de
saber por onde anda. O turista está com sua atenção
voltada para uma série de coisas. Fica exposto
a um monte de informações novas. Muitas
vezes se esquece que outras cidades têm problemas
nos quais ele presta atenção quando está
em casa", raciocina o autor. "A melhor maneira
de evitar isso é pedir dicas nos escritórios
de turismo e nos hotéis." Excesso de ingenuidade
pode custar caro, como àquele casal de chineses
que foi assassinado quando passeava em uma noite de
carnaval por uma avenida Rio Branco semivazia (no Rio
de Janeiro).
. . .
. Trechos
do livro - "Lisboa cheirava a flores e essa fragrância
me dava a impressão de ainda estar nas nuvens,
sem precisar de avião, o que é muito melhor.
O jovem vigarista que me abordou na estação
de trem de Mira Sintra deve ter percebido isso. Era
um rapaz com farda do exército português,
alto, corpo atlético, sorridente e simpático.
Eu estava na fila do táxi para mim um
luxo que o cansaço justificava quando
ele se aproximou:
. . .
.
Para que lado estás a ir, perguntou.
. . .
. Expliquei
a intenção do meu percurso.
. . .
.
Mas que sorte, tu poderias me dar uma carona até
o quartel, que é caminho e não lhe representa
gasto adicional algum?
. . .
. E
por que não? O moço era bem-falante, deu-me
dicas sobre Portugal e não deixou o assunto morrer
até chegarmos a seu destino. Como sorria o gajo
na hora de nos despedirmos!
. . .
. Só
depois fiquei sabendo o motivo de tanto bom humor. O
quartel era do lado exatamente oposto ao que eu estava
indo, o que fez a corrida do táxi custar o triplo.
Eu não tinha completado duas horas em solo europeu
e já havia sofrido um par de prejuízos.
. . .
. Uma
foto aqui, outra pose ali, um flagrante de um casal
de namorados acolá, o tempo foi passando. Já
estávamos quase para ir embora quando um homem
de seus 40 anos, com calça jeans e barba por
fazer, nos abordou.
. . .
.
Os amigos não estariam interessados em correntinhas
de ouro e haxixe? disse e mostrou os tais artigos
à venda, para meu espanto.
. . .
.
Não disse Isomar, e reforçou a negativa
com acenos da cabeça e gestos. O mascate insistiu
e já ia desembrulhando o haxixe, quando meu companheiro
decidiu ser mais enfático, erguendo a voz.
. . .
.
Amigo, já dissemos que não estamos interessados,
entendeste?
. . .
. Ele
finalmente convenceu-se de que não faríamos
negócio. Isomar comentou que o homem é
um dos muitos ciganos que vivem do tráfico e
de pequenos roubos na área do porto. Naquele
dia ele tentou nos vender. Poderíamos encontrá-lo
em outra ocasião, e ele nos roubaria coisas que
ofereceria a outros turistas.
. . .
. No
trem para Amsterdã, estava um pouco apreensivo.
Imaginava que Amsterdã, por ser um local onde
o consumo de droga é liberado, tenderia a atrair
gente acostumada a andar fora da lei em seus países
de origem. Cheguei na estação central
por volta das 10h30. Já fora da estação,
um rapaz me ofereceu um hotel. Desconfiei da hospedagem
muito econômica desconhecidos que parecem
ter as melhores intenções com negócios
da China e situações similares pedem uma
dose de desconfiança.
. . .
. Pensei
duas vezes mas acabei aceitando a proposta, apesar do
sutil aviso de minha intuição. Como o
local indicado ficava a três quarteirões
de onde estava, resolvi arriscar. Nem bem tinha acabado
de subir os poucos degraus que separavam o albergue
da rua pude ver rapazes e moças em pleno consumo,
ali mesmo no restaurante, àquela hora. Voltei
à estação para conseguir o endereço
de outro albergue, no escritório de informações
turísticas.
. . .
. Caminhávamos
perto da Ópera de Berlim, quando vimos uma pequena
aglomeração. No meio do burburinho, um
desses homens que apostam dinheiro no meio da rua. Três
pequenos potes emborcados e uma pequena bola de lã,
que circulava por baixo deles. O cara os embaralhava
rapidamente e perguntava em qual dos três estava
a bolinha.
. . .
. Como
era rápido! Mal dava para perceber o movimento
das mãos enquanto manipulava aquela coisinha
redonda. Mas, às vezes, parecia um pouco distraído.
Depois de ter embaralhado bem, ficou procurando quem
apostasse, com a atenção longe dos potes,
que ficavam no chão. Um desconhecido que estava
ao meu lado teve tempo de olhar embaixo sem que o jogador
percebesse. A bolinha estava bem ali. Apostou e ganhou.
. . .
. "Acontece",
resignou-se o jogador, voltando a embaralhar. A bolinha
estava no da direita. Agora, no da esquerda. Passou
para o do meio. Mudou de lugar novamente, e eu já
não tinha certeza de onde estava. Mais uma vez,
o jogador se distraiu, tirando os olhos dos potes.
. . .
. O
desconhecido levantou um deles, de forma que pude ver.
Lá estava ela! Pisei em cima daquele potinho
e chamei a aposta. "Vamos lá, 50 dólares
que a bolinha está neste aqui." Só
podia estar. Eu vi. Nunca foi tão simples ganhar
de um jogador de rua. Eu tinha separado o dinheiro que
apostei para gastar nos países do Leste, mas,
ganhando a aposta, eu passaria muito melhor.
. . .
. Casamos
os 100 dólares. Tirei o pé vagarosamente.
O jogador abriu o potinho com a ponta dos dedos. Nada.
Absolutamente nada. Nem sinal da bolinha. Como podia
ser? Eu vira a bolinha bem ali. Pedi para olhar o pote.
Vazio. Engoli seco e não disse uma palavra. Continuei
observando. O desconhecido ganhou a rodada seguinte.
Meus 50 dólares acabaram no bolso do jogador.
E o pior: de maneira inexplicável."
. . .
. Roma
- "Resolvemos chegar à capital italiana
pela manhã, pois teríamos tempo para procurar
hospedagem com a segurança e o conforto da luz
do dia. Arriscamos um pequeno hotel à direita
da estação ferroviária, que identificamos
por meio de uma tabuleta. Subimos dois lances de escada
e chegamos à recepção. A moça
nos atendeu com um sorriso maroto. Queríamos
ver os quartos. Ela nos acompanhou, agora com um sorriso
sacana. Meu Deus! Era um bordel. As luzes roxas e vermelhas
pelos corredores bem que denunciavam, mas só
tivemos certeza quando entramos em uma sala com pelo
menos seis mulheres seminuas.
. . .
. Tudo
perguntado, tudo bem entendido, nos entregamos a desvendar
Roma. Logo na saída da estação,
um contratempo: duas ciganas. Eram meninas de 15 anos,
que tentaram aplicar o velho golpe do jornal. Elas se
aproximam pedindo dinheiro, oferecendo correntinhas,
mais de uma ciganinha por vez. Falam muito, todas juntas,
criando tumulto. Sempre trazem um jornal, cartaz ou
cartolina na frente, na horizontal, encostando no corpo
da vítima. Na confusão, o incauto limita-se
a negar o dinheiro ou a compra, sem perceber que, sob
o jornal, as mãos rápidas das ciganas
estão trabalhando. Aconteceu conosco, mas no
meio do ataque percebi minha carteira aberta e comecei
a gritar. "Saiam daqui, vão embora".
Bem a tempo, pois as moças não conseguiram
levar nada."
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. . . O
autor - O consultor organizacional e conferencista Sergio
Motta é formado em administração
de empresas com pós-graduação em
Marketing. Morou em Boston, nos Estados Unidos, onde
fez cursos nas universidades de Harvard e Northeastern.
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. . . Motta
desenvolve trabalhos de consultoria e faz palestras,
ministra cursos e seminários em congressos, divulgando
suas idéias. Desde 1992, percorre o mundo desenvolvendo
o conceito de sua filosofia de vida, denominada "Ciência
do Ser". Seu principal elemento de pesquisa são
as viagens-aprendizado que realiza, nas quais busca
despertar os potenciais e a compreensão dos diferenciais
e limites para o equilíbrio do ser humano.
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. . . Autor
de vários livros, Sergio Motta é hoje
um dos profissionais mais requisitados para prestar
consultoria e palestras motivacionais para os mais variados
tipos de profissionais e empresas.