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quinta-feira, outubro 21, 2021
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Diário de Mongolia

Diário da Mongólia

Prudentina mora em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, desde 2017

MILENA MENDES

“Eu desisto! Meus planos nunca funcionam! Nunca vou parar em lugar algum.”

Voltaremos alguns anos para você entender minha indignação do começo desse texto. Seja atento e paciente, pois cada detalhe se conecta até o presente momento, aqui, na longínqua e histórica Mongólia de Gengis Khan. Cada frustração, agora, década (ou anos) depois, faz sentido.

Eu sou Milena Mendes, uma Prudentina de 28 anos que já passou por tanta coisa nessa vida, tantas surpresas, que várias pessoas já me recomendaram escrever um livro. Por que não?! Tenho alguns textos arquivados, então, um dia, quem sabe.

Plano frustrado #1
Comecei a dar aulas de Inglês em 2010, aos 18 anos, jovem com muita expectativa e pouca experiência. Decidi querer ir aos Estados Unidos por algumas semanas para experienciar o idioma em total imersão. Tinha evento planejado, hospedagem garantida, carta de recomendação da organização do evento e… Visto negado! Que decepção. A facilidade com o Inglês era incrível e continuei dando aulas, incomodada pelo fato de ensinar um idioma sem tê-lo vivido.

Plano frustrado #2
Ouvi falar de um tal Au Pair, programa de intercâmbio para trabalho como nanny e estudos em diversos países (EUA, inclusive). Me interessei! Surgiram vários “comos”. Como viver com uma família e ainda trabalhar para eles? Como deixar faculdade e família para ir? Como juntar grana para pagar minha viagem?

Depois de muito pesquisar, entendi que o programa era muito conveniente pois, diferentemente de outros, eu não precisaria me preocupar com hospedagem nem passagens, o que barateava muito o investimento. Comecei o processo de aplicar, preparar documentos, fazer os testes, até começar entrevistas meses mais tarde. A primeira família, de repente, desapareceu e perdi contato. Achei que não rolaria mais ir. Minha decisão foi estratégica com relação ao período — queria ir entre o segundo e terceiro anos da universidade (na época, transição de Comunicação Social para Jornalismo). Finalmente, em Abril de 2012, embarquei! Felicidade imensurável.

Em pouco mais de dois anos, fiz coisas inimagináveis na mente de uma jovem-adulta do interior paulista de 20 anos. Trabalhei em canal de TV Americano, conheci pessoas incríveis, bem como lugares também, trabalhei para o segurança da ex-secretária de Estado Hillary Clinton, e estudei numa das melhores universidades do país, a Georgetown University. Tomei, ainda, um curso para dar aulas de Inglês para quaisquer não-nativos do idioma, em qualquer parte do mundo, aprendi a administrar sala de aula, e esperei aumentar meu currículo e salário, uma vez que retornasse para casa (nunca aconteceu! Mas, ali na frente você verá a importância dela).

Noivei! Ah, que sonho para toda mulher. Encontrar “o amor da vida” e construir um futuro a dois. Procuramos (e encontramos) a que seria nossa casa; compramos louças e toalhas; de volta ao Brasil, em 2014, planejamos à distância os convites, em Português e em Inglês, programamos a viagem do noivo para o Brasil, estávamos prestes a assinar o contrato da nossa casa. Oito, nove meses depois, noivado desfeito. “Nunca mais vou querer pensar em casamento.” Coração quebrou.

Plano frustrado #3
Queria retornar aos Estados Unidos após graduar na universidade. Consegui o visto (de 10 anos), e foquei nisso. Em Abril de 2016 (ano de formatura) recebi um convite para dar aulas de Inglês numa escola na Mongólia. “Onde?! Tá brincando comigo.” Deixei a ideia de lado, crente que uma oferta de trabalho sairia dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em Julho e Agosto, onde trabalhei com o Comitê do Afeganistão. E a oferta veio! SporTV, canal esportivo da Rede Globo, me ofertou produção em um dos programas. Que alegria! O sonho de trabalhar com jornalismo esportivo se tornaria realidade. Alguns dias após o convite, um encontro inesperado com atletas da Mongólia na Vila Olímpica acelerou meu coração como que enviando uma mensagem clara: VÁ PARA A MONGÓLIA. Me arrepio sempre que lembro daquele momento. Jornalismo esportivo? Mais um plano frustrado — começando a me mostrar que tudo, até então, frustrara-se para o melhor ainda acontecer.

Plano frustrado #4
Cheguei à Ulaanbaatar, capital Mongol, em meio ao frio de 40 graus negativos, saindo do verão de quarenta positivos do Brasil, em Janeiro de 2017. O plano da vez? Cumprir os dois anos e meio de contrato, e retornar (claro!) para os EUA. Com oito meses de Mongólia, recebi um convite para apresentar um jornal político-econômico, ao vivo, aos domingos em horário-nobre, com o maior economista do país. Não era esportivo, mas era jornalismo — e, dessa vez, internacional. Com medos mas muita empolgação, aceitei.

Fiz isso por pouco mais de um ano e meio, quando agendas profissionais começaram a não se encaixar. Valeu a experiência, me tornando a primeira jornalista Brasileira em televisão Mongol. Aqui, também, encontrei quem hoje é meu marido. Nosso casamento foi lindo, na igreja onde cresci, em Prudente mesmo, realizado pela mesma pessoa, um pastor brasileiro, que me fez o convite inicial de vir para cá, em 2014. Precisei cruzar oceanos e continentes para entender que os planos se frustram, mas eles têm um propósito maior!

E aquela certificação para dar aulas de Inglês no mundo inteiro que não me valeu no Brasil? Seis anos depois de guardada na gaveta sem utilidade, foi justamente o que o Ministério da Educação local precisava para eu poder, legalmente, trabalhar na Mongólia. Passei por escola secundária, pelo Governo e o Instituto de Imprensa da capital, universidade e rede de Inglês internacionais como educadora. Fiz muita coisa.

Hoje, celebro os poucos dias que faltam para me tornar Diretora do Programa de Inglês da mesma universidade internacional por onde passei anteriormente. Após 10 anos como professora, é hora de dar um grande passo profissional na minha carreira acadêmica.

A Mongólia tem virado notícia mundialmente pela forma como estamos enfrentando o COVID-19. Já estamos nessa há quase onze meses, e são menos de 350 casos confirmados, e zero morte! Coladinhos na China, a capital Mongol fica à uma distância correspondente de São Paulo à Maceió com relação à Wuhan, epicentro do vírus. Quando tudo começou, ainda em Janeiro deste ano, todos os rumores nos assustavam. Tudo era desconhecido. Não tínhamos ideia do que estava acontecendo, e o terror tomou conta do país — e de mim, inicialmente, também!

Quis correr para o outro lado do mundo e fugir desse monstro vizinho. O Governo Mongol agiu rapidamente. Em meados de Janeiro, as aulas presenciais foram suspensas e passaram a ser transmitidas via TV e internet. No mês seguinte, as fronteiras terrestres para China e Rússia, únicos países fronteiriços, foram fechadas. Os vôos internacionais também foram cancelados e, para sair daqui, era apenas por vôos fretados providenciados pelo próprio Governo com destino a países com muitos Mongóis para trazê-los para casa.

Nunca entramos em estado de emergência de o país inteiro parar. Por três semanas, em Fevereiro, a fim de evitar celebrações públicas do Ano Novo Lunar, rodovias de acesso da capital para o interior foram fechadas, e o comércio também fechou as portas com exceção de supermercados e farmácias.

Todos os casos de contaminação são importados, ou seja, trazidos por alguém que já entrou na Mongólia tendo sido contaminado no exterior. Todos os que conseguem retornar são submetidos a três semanas de isolamento em uma facilidade destinada pelo Governo, tendo quatro testes de COVID-19 no período. Após os 21 dias, mais duas semanas em isolamento individual em casa. Hoje, me sinto extremamente segura aqui.

Dez anos me perguntando, “Sala de aula, até quando?”, apesar do amor pela profissão! Já são quase quatro anos daquele plano frustrado que seriam dois e meio. Mas ganhei família, ganhei amigos, eduquei centenas de Mongóis, tenho a saúde preservada e me preparo para assumir um cargo de grande responsabilidade. Graças a Deus pelos meus planos frustrados. Os dEle são muito maiores

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